quinta-feira, 20 de maio de 2010

Bom dia, Belo Monte! Boa noite, Rio Xingu!

Dom Erwin Krautler *

O que sempre defendi foi que o Brasil poderia dar ao mundo um exemplo de cuidado mais esmerado com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, de avanço na busca de fontes alternativas de energia, como a energia solar e a eólica. No Brasil não nos faltam universidades, centros de pesquisa e cientistas de ponta na busca de tais alternativas. Falta, no entanto, mais incentivo para tal. Em nossa Amazônia tropical, teríamos energia solar de sobra. Em outros países não tão abençoados com os raios solares como o Brasil (Estados Unidos e Alemanha, por exemplo), a percentagem de energia solar utilizada está aumentando significativamente a cada ano que passa. Não me cabe analisar o aspecto técnico, mas estou convicto de que na Amazônia se poderia investir mais em estudos desse tipo, certamente com bons resultados a médio e longo prazos.

Em artigo publicado pelo Correio Braziliense, em 7 de maio (Bom dia, Belo Monte, pág. 19), o engenheiro Nagib Charone me acusa de deixar os belíssimos ensinamentos de Cristo. Aí ele me acusa de maneira leviana. Entrou no rol daqueles que atacam o bispo do Xingu de forma gratuita e rasteira. Lamento que um professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), filho de Altamira, chega a excessos de crítica tão maliciosa. Nunca tive a intenção de lançar-me em debate técnico. O que me preocupa em relação a Belo Monte é exatamente a situação da população que será impactada se o projeto for executado.

Ao longo de cerca de 100 km, a volta grande do Xingu sofrerá redução da vazão e rebaixamento do lençol freático, com vários impactos biológicos e sociais associados. Essa perda de recursos naturais e hídricos prejudicará diretamente os povos indígenas. Afirma-se em bom e alto som que áreas indígenas não serão inundadas. O contrário é que vai acontecer. Será cortada a água aos indígenas e ribeirinhos. Como viver no seco? De que se alimentarão, já que as espécies que vivem nesse trecho do rio não sobreviverão sob um regime de vazão? Em outras palavras, o que os indígenas e ribeirinhos vão comer, se não há mais peixe? Apenas farinha puba?

Um terço de Altamira vai para o fundo. Entre 20 e 30 mil pessoas serão diretamente atingidas. A maioria desse povo não vive em palafitas (como costuma-se afirmar em Brasília), mas em casas de alvenaria ou madeira construídas ao longo de anos com muito suor e sacrifício. A maioria dessa gente não tem escritura. O que será dessas famílias? Qual é o futuro delas? Para onde irão? Os representantes do governo até hoje não me responderam a essa pergunta. Isso me causa até pesadelos, pois para mim essas pessoas não são apenas um dado estatístico, mas mulheres, homens, crianças, idosos que conheço.

O que resta da cidade de Altamira, se o projeto for realizado, vira uma península, cercada parcialmente por um lago estagnado, podre, morto. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) não conseguiu ultimar os estudos necessários a respeito da qualidade da água e certamente não conseguirá fazê-lo. A qualidade da água do lago artificial é uma incógnita, é imprevisível. Fato é que, segundo a experiência feita em outros lugares (Tucuruí, por exemplo), esse lago será um viveiro de carapanã e de todo tipo de outros mosquitos e gerador de doenças endêmicas. Altamira já está cheia de dengue. O que será de nossa cidade?

São essas as minhas preocupações, minha aflição, minha angústia em relação ao futuro do povo de Altamira, dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu. Como bispo e pastor, defendo o meu povo, impulsionado exatamente pelos belíssimos ensinamentos de Cristo, contidos no Evangelho.

[Correio, 13.05.2010. Opinião].


* Bispo do Xingu e Presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

4 comentários:

  1. Felipe dos Santos Gatinho Rocha20 de maio de 2010 22:11

    Por QUAL Cristo, esse bispo e pastor se IMPULSIONA?

    Pelo Cristo SEGUNDO a sua igreja, ou por JESUS, que na sua PRÁTICA, NEGA a propriedade e o acúmulo (privados) dos meios, com os quais, se satisfaz as necessidades dos outros?

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  2. Camarada Felipe. Não entendo o seu comentário. O que queremos aqui neste blog é criar um espaço para a defesa dos povos do Xingu e reafirmar a nossa luta contra as barragens da UHE de Belo Monte. Sua raiva contra a igreja em nada contribui e este não é o espaço para isso. Nós do Movimento Xingu Vivo para Sempre temos um respeito muito grande por D. Erwin. Todos, independente da crença ou da ausência dela. Nossos inimigos são outros. Você deve saber que tem outros fóruns onde vc pode fazer isso que não seja este blog. Aqui não discutimos religião. discutimos o respeito pela vida. Se você defende a construção da UHE de BM, creio que aqui não é o lugar adequado para escrver.
    Saudações.
    Marquinho Mota

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  3. FELIPE DOS SANTOS GATINHO ROCHA ou PUXIRUM21 de maio de 2010 20:01

    MINHA GRATIDÃO, POR NÃO TER APAGADO MINHAS INDAGAÇÕES DESTE ESPAÇO


    COMO RESPONDÊ-LAS, NÉ MARQUINHO?



    ENTÃO, FAZ-SE O QUE VOCÊ FAZ NO SEU COMENTÁRIO: ORDENA-SE, ADJETIVA-SE, INSINUA-SE, E NÃO SE É DIGNO DO RESPEITO Á VIDA, COMO TU DIZES


    MINHAS COISAS É MINHA VIDA
    A NATUREZA ME DÁ
    O QUE A CULTURA ME TIRA
    ABOMINO TODA UTOPIA
    E A COVARDE AÇÃO SUBLIMINAR, OU NÃO
    META A SUA MORAL NO CU
    CAGO SOBRE A PROPRIEDADE PRIVADA
    E JÁ DEI DESCARGA, PARA QUEM NÃO APRENDEU
    OU NÃO QUER
    PORQUE NÃO COMO DINHEIRO
    JÁ VOMITEI OS SEUS MEIOS
    TOM ZÉ DISSE, COMPROVANDO A BURRICE
    CANTOU BELCHIOR, AO VIVO É MUITO PIOR

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  4. Bom, acredito que necessito partilhar algo aqui:
    - Felipe, o Cristo que Dom Erwin Krautler defende é o Deus da Vida que põe a dignidade humana acima do capital. Talvez não se recorde, mas vale a pena fazer memória que quando Jesus chega no templo e vê pleno comércio no Templo, se enfurece contra o que estão transformando a Casa do Pai. A nós foi confiado sua casa, aquilo que Ele criou: A terra e todos/as que nela habitam. Aceitar Belo Monstro, é aceitar goela abaixo, "a morte da floresta e por conseqüência, o fim da nossa vida".

    Basicamente, é isso!

    - Marquinho, penso que, apesar deste ser um espaço de defesa do Rio Xingu, haverá pessoas com pensamentos contrários vindo aqui... Há uma opção de moderar os comentários no blog, mas eu sou favorável que deixe vir os comentários, que deverão ser respondidos para quem sabe esclarecer esta questão, a quem ainda não conseguimos nos entender.

    Eduardo Soares.
    Secretário Arquidiocesano da Pastoral da Juventude.
    Arquidiocese de Belém/Pa.

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